
um poema de 1993, agora em versão digital.
O soldado cutucou sua barriga com o bico da botina. São Cosmo ainda tá vivo. São Pedro e São Anastácio já foram se encontrar com Deus... Ou com o diabo, completou o outro soldado, com desprezo nos olhos e nos lábios. Cosmo mexeu os olhos, procurando ver o pedaço de mundo que lhe restara, ausente dele as belezas de Deus, dois soldados fazendo um festim, bebendo e comendo ao lado dos cadáveres de Pedro e Anastácio, só esperado Cosmo morrer pra levar os três pra Juazeiro e mostrar ao povo na praça.... A ordem era essa, Cosmo ouvira os soldados da besta-fera conversando. Soldados da besta-fera. Os aviões haviam despejado fogo sobre as matas da Serra do Araripe, até então Cosmo não atinava que avião fosse esse engenho que carregava a morte nas asas... O povo do Caldeirão não entendia tanto ódio. Cosmo lembrou o rosto sereno do beato Zé Lourenço: a besta-fera não tarda atacar, vamos preparar o corpo e o espírito... E Maria de Oeiras? Tava viva? Maria... Por que não quis casar comigo? Cosmo prometeu a si mesmo que nunca mais cobiçaria mulher nenhuma, fez votos de castidade, penitenciou-se tantas e tantas vezes quando a imagem de Maria lhe envolvia em íntimos redemoinhos espirituais, o chicote fazia o pecado escorrer em fios de sangue pelo corpo marcado, e há dois anos, três dias depois de meu Padim Ciço morrer, ele e Nossa Senhora das Dores apareceram pra mim numa luz e me disseram pra procurar o beato Zé Lourenço e ir com ele pro Caldeirão... Deus havia abandonado Cosmo; como havia abandonado Cristo, como havia abandonado os companheiros pobrezinhos de Cosmo. Quem ia fazer alguma coisa pelo povo do Caldeirão, massacrado pelos soldados do governo, governo do rabudo? Ou Deus estava punindo Cosmo pela tocaia? A tocaia: vendo o que os soldados tinham feito no Caldeirão, destruindo as casas que tanto suor custaram, roubando os trecos, os animais, a comida, levando as moças pra Fortaleza à força (e Maria de Oeiras, pra onde tinha ido?), o avião despejando fogo, a humilhação, a perseguição ao beato Zé Lourenço, não se arrependia da tocaia, da peixeira enfiada no peito do capitão Zé Bezerra, chefe dos soldados, enviado-da-besta-fera. Fizera aquilo pra glória de Deus e Nossa Senhora, meu Padim Ciço, meu pai Zé Lourenço e... Maria de Oeiras... Maria... Uma nuvem cresceu do nada, sufocando aos poucos as últimas lembranças, até seu imo se ausentar de vez...
No mesmo dia, 30 de setembro, os cadáveres de Cosmo, Pedro e Anastácio, moradores da comunidade Caldeirão, foram exibidos ao povo, na praça central de Juazeiro do Norte, aos mil novecentos e trinta e seis anos do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo.
çuor
das matas
babaçuais
babaçu
ais
coronéis defloram &
não há terecovodu a que valham os
de nada exkariris pretocosmes
sem mãos sem ser-
mões vieiras ou damiões
de tanto cortar juquira
de nada valem esses joões
elEs pira
sonhos todam iguais
: carcaraven rapinando
cedo o inverno de seus algozes
pátria dos cocais
chega de lerolero
pra ser um cidadão não um zero
debaixo dos babaçu
ais
não se oiça never
never jamais
Gilcênio Vieira Souza
Raridades III
Um texto de 1996. Sobre educação. Infelizmente, continua atual.
A escola no Brasil vive uma crise histórica. Esta afirmação virou um lugar comum, convenhamos. Porém, educadores conscientes do seu papel de agentes transformadores da realidade não podem adaptar-se à idéia de que é possível conviver acriticamente com este dilema. É preciso imaginar uma solução para os problemas educacionais brasileiros. E, imaginando, faremos uma primeira descoberta: a imaginação está ausente da escola, empobrecendo-a espiritualmente e alienando-a do processo social. Qual a importância do trabalho de dar “asas à imaginação” na sala de aula?
A liberdade de imaginar, exercida pelo professor e, conseqüentemente, pelo aluno, insurge-se contra a rotina robotizada que prevalece no ambiente escolar, cheia de tensões que deixam marcas em alunos e professores. O exercício da imaginação desperta nos alunos o interesse pela descoberta, o aluno descobre-se criador e libera aptidões, obscurecidas até então, devido à postura autoritária do professor e à monotonia não-criativa da escola.
Reciprocamente, o professor surpreende-se com seu próprio espírito lúdico e inventivo, que vivia sufocado pelo automatismo diário de um modelo educacional que privilegia a repetição e teme a inov(ação).
A escola precisa traçar um plano no qual todos estejam integrados numa ação uniforme, como um “Coletivo do Imaginário”. Sim, Coletivo do Imaginário (com maiúsculas mesmo), por que não? Não basta a atuação destemida de alguns professores. É necessário que todo o corpo escolar vivencie o trabalho da imaginação como uma prática democrática e um caminho para a mudança, para a invenção, para a criação do novo.
Imaginar é jogar; com imagens, conceitos, palavras. A prática pedagógica precisa adotar uma relação lúdica, que pontilhe de curiosidades o percurso utilizado pelo aluno, despertando-o para a busca e a recompensa da descoberta.
RARIDADES II
Texto antológico
BOLETIM DA COPA 2002
Domingo, 30 de junho de 2002.
PENTACAMPEÃO!
Derrubando muros, construindo sonhos
Gilcênio Vieira Souza
Era uma vez um país. Nele, muitos meninos pobres costumavam se distrair (e distrair o estomago) correndo atrás de uma bola nos baldios terrenos da vida. Conversavam com o mundo – e geralmente para eles o mundo se resumia à favela, ao bairro ou ao pedaço de sertão que habitavam – utilizando a linguagem do futebol. Um deles deixou de ir treinar na sede do clube por não ter dinheiro para pagar o ônibus. Outro, foi rejeitado por um técnico sem intuição: “muito fraco, se der um vento, ele cai”. Mal sabia ele que o garoto desnutrido faria gols, depois, quase do meio do campo, com a bola vencendo, miraculosamente, todos os ventos contrários.
Não era esse o país das maravilhas... Longe disso. Como nação, foi mais uma madrasta má para muitos dos seus filhos, que cresciam sem lar, emprego, saúde, escola e amor. Tantos quase não viveram, e morreram no anonimato. Alguns, no entanto, foram longe e escreveram belíssimos poemas na linguagem na qual se tornariam mestres: a do futebol. Tornaram-se Pelés, Garrinchas, Romários, Rivaldos, Ronaldos...
E esse povo sofrido começou a ter um sonho: ser os melhores do mundo no futebol. E foram; uma, duas, três, quatro vezes! Nenhum outro país havia sido, então, campeão quatro vezes. Só aquele, que possuía o mítico nome de Brasil.
30 de junho de 2002. O país dos meninos pobres, que por uma ironia do destino se transformavam em gênios da bola, iria mais uma vez disputar uma final de Copa, a sétima. O seu adversário, a Alemanha, também disputaria a sétima final. Se o Brasil possuía o artilheiro da copa e o melhor ataque, a melhor defesa e o goleiro menos vazado eram da Alemanha, a “muralha da copa”. Tristes lembranças... Medo... À mente do povo vinham imagens de lágrimas, cinqüenta e dois anos atrás, no Brasil, e quatro anos atrás, na França.
Angústia maior foi ver começar o jogo e a Alemanha no ataque...
Mas, no imaginário coletivo, mais fortes foram as lembranças de outras copas: 1958, 1962, 1970 e 1994. Pátria de chuteiras, país do futebol. Em cada craque brasileiro que corre sobre o tapete do estádio japonês, a inspiração pede passagem... E aos poucos vão surgindo as chances de gol. Se o artilheiro da copa recebe marcação especial, então que tal surpreender os alemães com Kléberson? Bola na trave...
Segundo tempo. São Marcos orou por nós... Até que passados 20 minutos... Rivaldo e o seu precioso chute de fora da área: o muro da Alemanha era mais frágil do que imaginávamos. Ronaldinho aproveitou o rebote e mandou pro fundo da rede... Poucos minutos depois (pouco minutos? Tudo nesse jogo parecia uma eternidade...), a deixada de Rivaldo colocou de novo a bola nos pés de Ronaldinho: Brasil 2, Alemanha zero. Brasil: cinco vezes campeão...
E o mítico país dos meninos das peladas, mais uma vez mostrou ao mundo a sua arte. O povo infeliz embriagou-se de uma felicidade só possível de quatro em quatro anos. Viu, de novo, seus meninos desnutridos construindo o sonho de um país... E, intimamente, torceu para que este país não demore a construir o sonho de todos esses meninos...
Gilcênio Vieira Souza
Raridades...
As próximas postagens são raridades do fundo do baú. Alguns, são textos da era pré-digital, ainda feitos na máquina de escrever! As datas da criação aparecem no fim de cada texto. Até que o primeiro - Pessoa - não é tão antigo: é de 2003. Abraços.
há um Pessoa
e suas múltiplas
pessoas
o problema é que nos
despessoalizamos
a todo instante
a ponto de não sabermos mais quem somos
ou
se ainda somos alguém
não nos permitimos ser
apenas vagabundos a molhar
a alma
solitários córregos
ou
ousados marinheiros a bradar
pelos mistérios do mundo
que maior prazer não há que
desafiar mistérios
como
o que fazer nessa tarde azul nesse planeta azul manchado pelo cinza do tédio e do torpor
de milhões de pessoas em milhões de anos singrando eras e sangrando e que não dormem e que não comem e que não sabem por que ainda podem ser chamados de homens?
seremos pessoas?
ou
por que não admirar
a beleza pagã
por trás dessas almas ingênuas
e conversar sobre a borda do universo e coisas afins
e dizer: “não estou para ninguém
nem para mim”
e deitar-se alma a alma
estender-se na relva olhando as estrelas?
sim
:
o principal dilema
dessa época
tão pouco
serena
é
:
ser uma pessoa
Gilcênio Vieira Souza
ninguém se banha
no mesmo
rio
duas
vezes
já dizia Heráclito
pois nem o rio
nem a pessoa
são os mesmos a cada segundo
estou aqui
no meio desse poema
e já não sou mais
o de antes, o das primeiras palavras
e o poema há muito deixou
de ser a folha em branco
à espera dum menestrel ou
do simples gesto
de uma mão ansiosa por contato
(não o do papel,
mas o silencioso enamoramento do olhar
de quem vai ler)
já que tudo muda
devemos tentar enxergar o segundo seguinte:
serei um velho contente de sua longevidade e cuja vida se resume a assistir na tv a novela das 8 de segunda a sábado e no domingo o futebol?
na dúvida,
cá estou a me aventurar por Joyce
e outros labirintos intelectuais
a
mudança não é
muda
: ela sussura ou grita
é branda ou enfezada
e quando, por um tempo afônica,
com música (ou ruídos)
na alma
sim, tudo muda
aprendamos, então,
a mudar
a mudar
com dignidade
e não ao sabor
de ventos
& tempestades
Pio XII, Maranhão, 10/01/08, 13 horas e 20 minutos.
Gilcênio Vieira Souza
Certa manhã, ao acordar de um sono intranqüilo, Gregório Samsung viu-se deitado no chão. Sua cama havia desaparecido. Não apenas a cama, também o lençol, o que explicava o frio que sentira durante a madrugada.
Não era sonho. O sol entrava pela fresta da janela, e com tal força, que Gregório deduziu que já era tarde, e que estava atrasado para o trabalho. O despertador não tocara, e por uma simples razão: o despertador também havia desaparecido.
Gregório procurou suas lentes de contato, que ficavam sobre o criado mudo. Gregório era ligeiramente míope. Mas a principal razão de usar as lentes era é que elas deixavam azuis os seus olhos originalmente castanhos. Mas: nem lentes, nem criado mudo.
Preciso urgentemente mandar um e-mail para o meu chefe, pensou Gregório. Mas logo desistiu da idéia, pois o computador também sumira. Não foi difícil para Gregório descobrir que o seu quarto estava completamente vazio, o que aumentou sua sensação de pânico.
Procurou ficar tranqüilo: sairia do quarto e imediatamente tomaria as necessárias providências em relação ao trabalho. Mas, ao tentar pôr em prática essa idéia, Gregório constatou que estava completamente nu. No exato instante em que fez essa nova descoberta, bateram na porta do quarto. Gregório! Você está atrasado para o trabalho! Era sua mãe.
Gregório não respondeu: ainda não sabia o que dizer. A nudez o deixara inicialmente sem ação. Olhou para o próprio corpo como se olhasse para um corpo estranho. Procurou algumas marcas de sua história particular de vida: a tatuagem no ombro esquerdo com o nome da namorada – não estava lá!
Gregório Samsung começava a se apavorar com a possibilidade de estar se transformando num outro ser. E a última descoberta veio atiçar ainda mais essa impressão: o piercing na língua também tinha sumido.
Voltaram a bater na porta. Era a irmã de Gregório. Gregório, o que está acontecendo? Abra a porta, por favor, preciso falar com você. A voz amável da irmã o convenceu a abrir a porta, mas não por completo, apenas o suficiente para colocar a cabeça por entre a abertura e conversar com a irmã.
A irmã de Gregório nada falou. Olhou para ele com se olhasse para um estranho.
Gregório, onde estão seus olhos azuis?
Gregório tentou balbuciar algumas palavras, mas nada saiu.
Cadê o seu piercing?
Gregório, sem palavras.
Onde está meu irmão?
A irmã de Gregório saiu chorando, o que deixou Gregório apreensivo, pois sabia que isso chamaria a atenção do pai, que logo viria bater à porta. O que de fato aconteceu:
Gregório, abra imediatamente essa porta!
Gregório relutava em abrir, pois conhecia a personalidade enérgica e intolerante do pai.
Gregório!
Ao tentar conversar com o pai da mesma maneira como conversara com a irmã – colocando apenas a cabeça pela abertura da porta – Gregório teve uma surpresa: o pai empurrou a porta, com força suficiente para fazê-la se abrir por completo e derrubar Gregório no meio do quarto vazio.
Que diabos está acontecendo aqui?
Gregório encolheu-se em posição fetal. O pai avançou como se fosse bater no filho. Mas, ao se aproximar, mirou Gregório como se o filho fosse outra pessoa. E, ao olhar ao redor, o vazio, saiu rápido do quarto e bateu a porta.
Gregório estava confuso. Pensou em chamar a irmã; entre eles havia muita afinidade. Porém, tal iniciativa não pôde se realizar: fortes batidas, fora do quarto, chamaram a atenção de Gregório. O barulho era bem próximo, o que levou Gregório a deduzir que pregavam alguma coisa na porta do quarto. O que Gregório apenas soube quando tentou abrir a porta, é que não pregavam coisa alguma na porta, pregavam a própria porta. Gregório agora estava preso no quarto.
Gregório encostou-se à parede e começou a pensar na nova situação. Sem tecnologia, encarcerado no próprio quarto, hostilizado pela família, tratado como um estranho. O que faria?
Foi aí que Gregório se lembrou da janela do quarto, que dava para a rua, e que a família havia esquecido de pregar, como fizera com a porta.
Sem fazer barulho, Gregório a abriu. Lá fora, a rua estava do mesmo jeito. Cuidadosamente pulou a janela e chegou à rua. Estava nu; precisava correr.
E Gregório correu.
Cheio de novos planos... Enquanto corria, esbanjava pensamentos inocentes, como: viver no campo e obter da mãe natureza tudo de que precisasse!
Gregório corria e não se dava conta de sua nova fisionomia: seu crânio apresentava-se menor; seu rosto estava coberto de pelos.
Gregório havia se transformando num neardental.
Gilcênio Vieira Souza
Querido Professor:
Tem coisas que o senhor não sabe sobre mim.
Não sabe, por exemplo, que, assim como o senhor, eu estou me adaptando aos novos tempos da educação.
Logo que começou o ano letivo, procurei o diretor da escola e me informei sobre o currículo. Ele me explicou as “diretrizes” (foi essa palavra mesmo que ele usou) sobre a educação no Brasil e o que elas dizem sobre o currículo escolar.
Eu sei, professor, que o senhor é craque nesse e em outros assuntos que dizem respeito ao ensinar-aprender. Portanto, não vou falar nisso, pois quem sou eu para tanto? Vou continuar apenas relatando algumas coisas que aprendi e uma coisa que não consigo entender.
Assim, professor, aprendi que o senhor gostaria que eu desenvolvesse certas habilidades e atingisse determinadas competências.
Descobri também que existem duas idéias: uma chamada interdisciplinaridade e outra chamada contextualização, que estão sendo aplicadas em nossa escola – o diretor que falou.
Ele me falou também que a escola pretende me preparar para o “exercício da cidadania”, segundo a lei 9394/96. Ele procurou a cópia da lei para me mostrar, mas não estava em sua gaveta.
Mas, tudo bem. Eu fui no cyber, entrei no google e consegui o texto da lei 9394/96, que tem como nome completo: “Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional”. E, realmente, está lá, no artigo 2º, falando sobre o “exercício da cidadania”.
Novos tempos, certo professor? Uma “nova realidade educacional”, foi o que disse o diretor.
Então, professor, por que é que o senhor disse que eu vou ficar reprovado por meio ponto? Deixa de ser mão de vaca, véi!
Arredonda a nota aí, fessô!
Santa Inês, 24 de maio de 2007.
| Gilcênio Vieira Souza O filósofo Karl Marx (1818-1883) disse certa vez que a história costuma se repetir; a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. A terceira como tragédia e farsa, acrescento eu. Baseado nesse raciocínio, a primeira vez que a França eliminou o Brasil duma copa (em 1986, nos pênaltis), pode ser considerada uma verdadeira tragédia. A segunda, o melancólico final da copa de 98 (3 a zero para a França), foi uma farsa – e, de fato, até hoje a misteriosa doença de Ronaldinho nunca foi explicada direito.A história se repetiu na copa desse ano: França 1, Brasil zero; como tragédia e como farsa. A tragédia é evidente. Apesar de ser a 13ª economia do mundo, o Brasil é o 8º país com a pior distribuição de renda, perdendo para toda América Latina, com exceção da Guatemala, toda a Ásia e boa parta da África. 24% da população economicamente ativa vive em estado de pobreza, recebendo até meio salário mínimo por mês. Além disso, tem a corrupção (mensalões, sanguessugas, etc), a violência, a insegurança pública e outras desgraças causadas pelo capitalismo. Assim, a maioria dos brasileiros faz da fé na seleção brasileira de futebol razão para continuar acreditando na vida. Com a eliminação da seleção, mais do que tristeza, o sentimento que tomou conta dos brasileiros, foi a raiva. Raiva contra a apatia do time, por não espelhar em campo o espírito de sacrifício do povo brasileiro (que fique claro: sacrifício imposto pelos capitalistas e por seu eficiente Estado, não por espírito de renúncia cristão). A derrota do Brasil representou a desmistificação do futebol brasileiro, para a qual contribuiu bastante o péssimo desempenho dos nossos jogadores na copa e, em particular, naquele jogo contra o time de Zidane. A farsa está latente no forte merchandising em torno do técnico e dos jogadores brasileiros, que transformaram a copa num grande balcão de negócios. Parreira, por exemplo, lançou, junto com a copa, o livro “Formando equipes vencedoras”, segundo ele, “lições de liderança e motivação, do esporte aos negócios”. Propaganda enganosa: seus “ensinamentos” não levaram à formação de uma equipe vencedora na copa. Bastante motivados fora de campo no gerenciamento da própria imagem e do lucro de suas “marcas” durante a copa (muito importante: aproveitar o momento), Parreira e vários jogadores, como os dois Ronaldos, Kaká, Adriano e Roberto Carlos pareciam desmotivados dentro de campo, como se estivessem “com a vida ganha”. Motivação e atitude que não faltaram para Robinho, Cicinho e Fred, jogadores que, apesar do reconhecimento, estão construindo suas carreiras. Que isso não sirva de consolo para a eliminação do Brasil, mas o futebol está cada vez menos “romântico”. Os talentos individuais existem e ainda podem ser admirados, mas de conjunto o que predomina é o título pelo título. Assim, pode ser uma ironia do destino, o título mundial ter ficado com a Itália, país onde o futebol está metido num mar de lama e corrupção. Pode, no entanto, não ser mais que a conseqüência natural de um esporte cuja organização baseia-se mais e mais na lógica capitalista e sua “pressa” por lucros e resultados. |