sábado, abril 26, 2008

poema (1993)


um poema de 1993, agora em versão digital.

Cosmo

Gilcênio Vieira Souza

Marcelo, finalmente um conto. De 2001.


O soldado cutucou sua barriga com o bico da botina. São Cosmo ainda tá vivo. São Pedro e São Anastácio já foram se encontrar com Deus... Ou com o diabo, completou o outro soldado, com desprezo nos olhos e nos lábios. Cosmo mexeu os olhos, procurando ver o pedaço de mundo que lhe restara, ausente dele as belezas de Deus, dois soldados fazendo um festim, bebendo e comendo ao lado dos cadáveres de Pedro e Anastácio, só esperado Cosmo morrer pra levar os três pra Juazeiro e mostrar ao povo na praça.... A ordem era essa, Cosmo ouvira os soldados da besta-fera conversando. Soldados da besta-fera. Os aviões haviam despejado fogo sobre as matas da Serra do Araripe, até então Cosmo não atinava que avião fosse esse engenho que carregava a morte nas asas... O povo do Caldeirão não entendia tanto ódio. Cosmo lembrou o rosto sereno do beato Zé Lourenço: a besta-fera não tarda atacar, vamos preparar o corpo e o espírito... E Maria de Oeiras? Tava viva? Maria... Por que não quis casar comigo? Cosmo prometeu a si mesmo que nunca mais cobiçaria mulher nenhuma, fez votos de castidade, penitenciou-se tantas e tantas vezes quando a imagem de Maria lhe envolvia em íntimos redemoinhos espirituais, o chicote fazia o pecado escorrer em fios de sangue pelo corpo marcado, e há dois anos, três dias depois de meu Padim Ciço morrer, ele e Nossa Senhora das Dores apareceram pra mim numa luz e me disseram pra procurar o beato Zé Lourenço e ir com ele pro Caldeirão... Deus havia abandonado Cosmo; como havia abandonado Cristo, como havia abandonado os companheiros pobrezinhos de Cosmo. Quem ia fazer alguma coisa pelo povo do Caldeirão, massacrado pelos soldados do governo, governo do rabudo? Ou Deus estava punindo Cosmo pela tocaia? A tocaia: vendo o que os soldados tinham feito no Caldeirão, destruindo as casas que tanto suor custaram, roubando os trecos, os animais, a comida, levando as moças pra Fortaleza à força (e Maria de Oeiras, pra onde tinha ido?), o avião despejando fogo, a humilhação, a perseguição ao beato Zé Lourenço, não se arrependia da tocaia, da peixeira enfiada no peito do capitão Zé Bezerra, chefe dos soldados, enviado-da-besta-fera. Fizera aquilo pra glória de Deus e Nossa Senhora, meu Padim Ciço, meu pai Zé Lourenço e... Maria de Oeiras... Maria... Uma nuvem cresceu do nada, sufocando aos poucos as últimas lembranças, até seu imo se ausentar de vez...

No mesmo dia, 30 de setembro, os cadáveres de Cosmo, Pedro e Anastácio, moradores da comunidade Caldeirão, foram exibidos ao povo, na praça central de Juazeiro do Norte, aos mil novecentos e trinta e seis anos do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo.

segunda-feira, abril 14, 2008

um poema de 1999

Gilcênio Vieira Souza

çuor

das matas

babaçuais

babaçu

ais

coronéis defloram &

não há terecovodu a que valham os

de nada exkariris pretocosmes

sem mãos sem ser-

mões vieiras ou damiões

de tanto cortar juquira

de nada valem esses joões

elEs pira

sonhos todam iguais

: carcaraven rapinando

cedo o inverno de seus algozes

pátria dos cocais

chega de lerolero

pra ser um cidadão não um zero

debaixo dos babaçu

ais

não se oiça never

never jamais

sábado, março 22, 2008

Um lugar na escola para a imaginação

Gilcênio Vieira Souza


Raridades III

Um texto de 1996. Sobre educação. Infelizmente, continua atual.

A escola no Brasil vive uma crise histórica. Esta afirmação virou um lugar comum, convenhamos. Porém, educadores conscientes do seu papel de agentes transformadores da realidade não podem adaptar-se à idéia de que é possível conviver acriticamente com este dilema. É preciso imaginar uma solução para os problemas educacionais brasileiros. E, imaginando, faremos uma primeira descoberta: a imaginação está ausente da escola, empobrecendo-a espiritualmente e alienando-a do processo social. Qual a importância do trabalho de dar “asas à imaginação” na sala de aula?

A liberdade de imaginar, exercida pelo professor e, conseqüentemente, pelo aluno, insurge-se contra a rotina robotizada que prevalece no ambiente escolar, cheia de tensões que deixam marcas em alunos e professores. O exercício da imaginação desperta nos alunos o interesse pela descoberta, o aluno descobre-se criador e libera aptidões, obscurecidas até então, devido à postura autoritária do professor e à monotonia não-criativa da escola.

Reciprocamente, o professor surpreende-se com seu próprio espírito lúdico e inventivo, que vivia sufocado pelo automatismo diário de um modelo educacional que privilegia a repetição e teme a inov(ação).

A escola precisa traçar um plano no qual todos estejam integrados numa ação uniforme, como um “Coletivo do Imaginário”. Sim, Coletivo do Imaginário (com maiúsculas mesmo), por que não? Não basta a atuação destemida de alguns professores. É necessário que todo o corpo escolar vivencie o trabalho da imaginação como uma prática democrática e um caminho para a mudança, para a invenção, para a criação do novo.

Imaginar é jogar; com imagens, conceitos, palavras. A prática pedagógica precisa adotar uma relação lúdica, que pontilhe de curiosidades o percurso utilizado pelo aluno, despertando-o para a busca e a recompensa da descoberta.

quinta-feira, março 20, 2008

Derrubando muros, construindo sonhos

RARIDADES II

Texto antológico

BOLETIM DA COPA 2002

Domingo, 30 de junho de 2002.

PENTACAMPEÃO!

Derrubando muros, construindo sonhos

Gilcênio Vieira Souza

Era uma vez um país. Nele, muitos meninos pobres costumavam se distrair (e distrair o estomago) correndo atrás de uma bola nos baldios terrenos da vida. Conversavam com o mundo – e geralmente para eles o mundo se resumia à favela, ao bairro ou ao pedaço de sertão que habitavam – utilizando a linguagem do futebol. Um deles deixou de ir treinar na sede do clube por não ter dinheiro para pagar o ônibus. Outro, foi rejeitado por um técnico sem intuição: “muito fraco, se der um vento, ele cai”. Mal sabia ele que o garoto desnutrido faria gols, depois, quase do meio do campo, com a bola vencendo, miraculosamente, todos os ventos contrários.

Não era esse o país das maravilhas... Longe disso. Como nação, foi mais uma madrasta má para muitos dos seus filhos, que cresciam sem lar, emprego, saúde, escola e amor. Tantos quase não viveram, e morreram no anonimato. Alguns, no entanto, foram longe e escreveram belíssimos poemas na linguagem na qual se tornariam mestres: a do futebol. Tornaram-se Pelés, Garrinchas, Romários, Rivaldos, Ronaldos...

E esse povo sofrido começou a ter um sonho: ser os melhores do mundo no futebol. E foram; uma, duas, três, quatro vezes! Nenhum outro país havia sido, então, campeão quatro vezes. Só aquele, que possuía o mítico nome de Brasil.

30 de junho de 2002. O país dos meninos pobres, que por uma ironia do destino se transformavam em gênios da bola, iria mais uma vez disputar uma final de Copa, a sétima. O seu adversário, a Alemanha, também disputaria a sétima final. Se o Brasil possuía o artilheiro da copa e o melhor ataque, a melhor defesa e o goleiro menos vazado eram da Alemanha, a “muralha da copa”. Tristes lembranças... Medo... À mente do povo vinham imagens de lágrimas, cinqüenta e dois anos atrás, no Brasil, e quatro anos atrás, na França.

Angústia maior foi ver começar o jogo e a Alemanha no ataque...

Mas, no imaginário coletivo, mais fortes foram as lembranças de outras copas: 1958, 1962, 1970 e 1994. Pátria de chuteiras, país do futebol. Em cada craque brasileiro que corre sobre o tapete do estádio japonês, a inspiração pede passagem... E aos poucos vão surgindo as chances de gol. Se o artilheiro da copa recebe marcação especial, então que tal surpreender os alemães com Kléberson? Bola na trave...

Segundo tempo. São Marcos orou por nós... Até que passados 20 minutos... Rivaldo e o seu precioso chute de fora da área: o muro da Alemanha era mais frágil do que imaginávamos. Ronaldinho aproveitou o rebote e mandou pro fundo da rede... Poucos minutos depois (pouco minutos? Tudo nesse jogo parecia uma eternidade...), a deixada de Rivaldo colocou de novo a bola nos pés de Ronaldinho: Brasil 2, Alemanha zero. Brasil: cinco vezes campeão...

E o mítico país dos meninos das peladas, mais uma vez mostrou ao mundo a sua arte. O povo infeliz embriagou-se de uma felicidade só possível de quatro em quatro anos. Viu, de novo, seus meninos desnutridos construindo o sonho de um país... E, intimamente, torceu para que este país não demore a construir o sonho de todos esses meninos...

quarta-feira, março 19, 2008

Pessoa

Gilcênio Vieira Souza


Raridades...

As próximas postagens são raridades do fundo do baú. Alguns, são textos da era pré-digital, ainda feitos na máquina de escrever! As datas da criação aparecem no fim de cada texto. Até que o primeiro - Pessoa - não é tão antigo: é de 2003. Abraços.


em toda pessoa

há um Pessoa

e suas múltiplas

pessoas

o problema é que nos

despessoalizamos

a todo instante

a ponto de não sabermos mais quem somos

ou

se ainda somos alguém

não nos permitimos ser

apenas vagabundos a molhar

a alma

solitários córregos

ou

ousados marinheiros a bradar

pelos mistérios do mundo

que maior prazer não há que

desafiar mistérios

como

o que fazer nessa tarde azul nesse planeta azul manchado pelo cinza do tédio e do torpor

de milhões de pessoas em milhões de anos singrando eras e sangrando e que não dormem e que não comem e que não sabem por que ainda podem ser chamados de homens?

seremos pessoas?

ou

por que não admirar

a beleza pagã

por trás dessas almas ingênuas

e conversar sobre a borda do universo e coisas afins

e dizer: “não estou para ninguém

nem para mim”

e deitar-se alma a alma

estender-se na relva olhando as estrelas?

sim

:

o principal dilema

dessa época

tão pouco

serena

é

:

ser uma pessoa

segunda-feira, janeiro 21, 2008

poema

Gilcênio Vieira Souza


clique na figura para visualizar melhor



quinta-feira, janeiro 10, 2008

Heráclito

Gilcênio Vieira Souza

ninguém se banha

no mesmo

rio

duas

vezes

já dizia Heráclito

pois nem o rio

nem a pessoa

são os mesmos a cada segundo


estou aqui

no meio desse poema

e já não sou mais

o de antes, o das primeiras palavras

e o poema há muito deixou

de ser a folha em branco

à espera dum menestrel ou

do simples gesto

de uma mão ansiosa por contato

(não o do papel,

mas o silencioso enamoramento do olhar

de quem vai ler)


já que tudo muda

devemos tentar enxergar o segundo seguinte:

serei um velho contente de sua longevidade e cuja vida se resume a assistir na tv a novela das 8 de segunda a sábado e no domingo o futebol?

na dúvida,

cá estou a me aventurar por Joyce

e outros labirintos intelectuais


a

mudança não é

muda

: ela sussura ou grita

é branda ou enfezada

e quando, por um tempo afônica,

com música (ou ruídos)

na alma


sim, tudo muda


aprendamos, então,

a mudar


a mudar

com dignidade

e não ao sabor

de ventos

& tempestades


Pio XII, Maranhão, 10/01/08, 13 horas e 20 minutos.

domingo, novembro 18, 2007

A metamorfose

Gilcênio Vieira Souza


Certa manhã, ao acordar de um sono intranqüilo, Gregório Samsung viu-se deitado no chão. Sua cama havia desaparecido. Não apenas a cama, também o lençol, o que explicava o frio que sentira durante a madrugada.

Não era sonho. O sol entrava pela fresta da janela, e com tal força, que Gregório deduziu que já era tarde, e que estava atrasado para o trabalho. O despertador não tocara, e por uma simples razão: o despertador também havia desaparecido.

Gregório procurou suas lentes de contato, que ficavam sobre o criado mudo. Gregório era ligeiramente míope. Mas a principal razão de usar as lentes era é que elas deixavam azuis os seus olhos originalmente castanhos. Mas: nem lentes, nem criado mudo.

Preciso urgentemente mandar um e-mail para o meu chefe, pensou Gregório. Mas logo desistiu da idéia, pois o computador também sumira. Não foi difícil para Gregório descobrir que o seu quarto estava completamente vazio, o que aumentou sua sensação de pânico.

Procurou ficar tranqüilo: sairia do quarto e imediatamente tomaria as necessárias providências em relação ao trabalho. Mas, ao tentar pôr em prática essa idéia, Gregório constatou que estava completamente nu. No exato instante em que fez essa nova descoberta, bateram na porta do quarto. Gregório! Você está atrasado para o trabalho! Era sua mãe.

Gregório não respondeu: ainda não sabia o que dizer. A nudez o deixara inicialmente sem ação. Olhou para o próprio corpo como se olhasse para um corpo estranho. Procurou algumas marcas de sua história particular de vida: a tatuagem no ombro esquerdo com o nome da namorada – não estava lá!

Gregório Samsung começava a se apavorar com a possibilidade de estar se transformando num outro ser. E a última descoberta veio atiçar ainda mais essa impressão: o piercing na língua também tinha sumido.

Voltaram a bater na porta. Era a irmã de Gregório. Gregório, o que está acontecendo? Abra a porta, por favor, preciso falar com você. A voz amável da irmã o convenceu a abrir a porta, mas não por completo, apenas o suficiente para colocar a cabeça por entre a abertura e conversar com a irmã.

A irmã de Gregório nada falou. Olhou para ele com se olhasse para um estranho.

  • Gregório, onde estão seus olhos azuis?

Gregório tentou balbuciar algumas palavras, mas nada saiu.

  • Cadê o seu piercing?

Gregório, sem palavras.

  • Onde está meu irmão?

A irmã de Gregório saiu chorando, o que deixou Gregório apreensivo, pois sabia que isso chamaria a atenção do pai, que logo viria bater à porta. O que de fato aconteceu:

  • Gregório, abra imediatamente essa porta!

Gregório relutava em abrir, pois conhecia a personalidade enérgica e intolerante do pai.

  • Gregório!

Ao tentar conversar com o pai da mesma maneira como conversara com a irmã – colocando apenas a cabeça pela abertura da porta – Gregório teve uma surpresa: o pai empurrou a porta, com força suficiente para fazê-la se abrir por completo e derrubar Gregório no meio do quarto vazio.

  • Que diabos está acontecendo aqui?

Gregório encolheu-se em posição fetal. O pai avançou como se fosse bater no filho. Mas, ao se aproximar, mirou Gregório como se o filho fosse outra pessoa. E, ao olhar ao redor, o vazio, saiu rápido do quarto e bateu a porta.

Gregório estava confuso. Pensou em chamar a irmã; entre eles havia muita afinidade. Porém, tal iniciativa não pôde se realizar: fortes batidas, fora do quarto, chamaram a atenção de Gregório. O barulho era bem próximo, o que levou Gregório a deduzir que pregavam alguma coisa na porta do quarto. O que Gregório apenas soube quando tentou abrir a porta, é que não pregavam coisa alguma na porta, pregavam a própria porta. Gregório agora estava preso no quarto.

Gregório encostou-se à parede e começou a pensar na nova situação. Sem tecnologia, encarcerado no próprio quarto, hostilizado pela família, tratado como um estranho. O que faria?

Foi aí que Gregório se lembrou da janela do quarto, que dava para a rua, e que a família havia esquecido de pregar, como fizera com a porta.

Sem fazer barulho, Gregório a abriu. Lá fora, a rua estava do mesmo jeito. Cuidadosamente pulou a janela e chegou à rua. Estava nu; precisava correr.

E Gregório correu.

Cheio de novos planos... Enquanto corria, esbanjava pensamentos inocentes, como: viver no campo e obter da mãe natureza tudo de que precisasse!

Gregório corria e não se dava conta de sua nova fisionomia: seu crânio apresentava-se menor; seu rosto estava coberto de pelos.

Gregório havia se transformando num neardental.

sexta-feira, setembro 07, 2007

poe(m)

gilcênio vieira souza

there is a bust of Pallas
just above my head
when I look at her
my obscene side
goes
away

the cold wind
through the window
is saying for me
“you are alone
in the world
and your name isn’t
Raymond”

shivering
red eyes
a black cat look at me
but my blood has a little ink
and the life is brief
:
at least
I want
to kiss
your icy lips

Mr. Poe (1809-1849), thanks.

Pio XII, November 07, 2000.


poe(m)a
gilcênio vieira souza

há um busto de Pallas
sobre minha cabeça
quando olho pra ela
meu lado obsceno
vai
embora:

o vento frio
através da janela
está me dizendo
“você está sozinho
no mundo
e seu nome não é
Raimundo”

um arrepio
olhos vermelhos
um gato preto olha pra mim
mas meu sangue tem pouca tinta
e a vida é breve
:
eu quero
pelo menos
beijar
teus gélidos
lábios

Mr. Poe (1809-1849), obrigado.

Pio XII, 07 de novembro de 2000.

terça-feira, junho 26, 2007

terça-feira, maio 29, 2007

domingo, maio 27, 2007

Arredonda a nota aí, fessô!

Gilcênio Vieira Souza


Querido Professor:

Tem coisas que o senhor não sabe sobre mim.

Não sabe, por exemplo, que, assim como o senhor, eu estou me adaptando aos novos tempos da educação.

Logo que começou o ano letivo, procurei o diretor da escola e me informei sobre o currículo. Ele me explicou as “diretrizes” (foi essa palavra mesmo que ele usou) sobre a educação no Brasil e o que elas dizem sobre o currículo escolar.

Eu sei, professor, que o senhor é craque nesse e em outros assuntos que dizem respeito ao ensinar-aprender. Portanto, não vou falar nisso, pois quem sou eu para tanto? Vou continuar apenas relatando algumas coisas que aprendi e uma coisa que não consigo entender.

Assim, professor, aprendi que o senhor gostaria que eu desenvolvesse certas habilidades e atingisse determinadas competências.

Descobri também que existem duas idéias: uma chamada interdisciplinaridade e outra chamada contextualização, que estão sendo aplicadas em nossa escola – o diretor que falou.

Ele me falou também que a escola pretende me preparar para o “exercício da cidadania”, segundo a lei 9394/96. Ele procurou a cópia da lei para me mostrar, mas não estava em sua gaveta.

Mas, tudo bem. Eu fui no cyber, entrei no google e consegui o texto da lei 9394/96, que tem como nome completo: “Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional”. E, realmente, está lá, no artigo 2º, falando sobre o “exercício da cidadania”.

Novos tempos, certo professor? Uma “nova realidade educacional”, foi o que disse o diretor.

Então, professor, por que é que o senhor disse que eu vou ficar reprovado por meio ponto? Deixa de ser mão de vaca, véi!

Arredonda a nota aí, fessô!


Santa Inês, 24 de maio de 2007.

segunda-feira, julho 24, 2006

Tragédia e farsa: a seleção do merchandising

Gilcênio Vieira Souza

O filósofo Karl Marx (1818-1883) disse certa vez que a história costuma se repetir; a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. A terceira como tragédia e farsa, acrescento eu.
Baseado nesse raciocínio, a primeira vez que a França eliminou o Brasil duma copa (em 1986, nos pênaltis), pode ser considerada uma verdadeira tragédia. A segunda, o melancólico final da copa de 98 (3 a zero para a França), foi uma farsa – e, de fato, até hoje a misteriosa doença de Ronaldinho nunca foi explicada direito.A história se repetiu na copa desse ano: França 1, Brasil zero; como tragédia e como farsa.

A tragédia é evidente. Apesar de ser a 13ª economia do mundo, o Brasil é o 8º país com a pior distribuição de renda, perdendo para toda América Latina, com exceção da Guatemala, toda a Ásia e boa parta da África. 24% da população economicamente ativa vive em estado de pobreza, recebendo até meio salário mínimo por mês. Além disso, tem a corrupção (mensalões, sanguessugas, etc), a violência, a insegurança pública e outras desgraças causadas pelo capitalismo. Assim, a maioria dos brasileiros faz da fé na seleção brasileira de futebol razão para continuar acreditando na vida.
Com a eliminação da seleção, mais do que tristeza, o sentimento que tomou conta dos brasileiros, foi a raiva. Raiva contra a apatia do time, por não espelhar em campo o espírito de sacrifício do povo brasileiro (que fique claro: sacrifício imposto pelos capitalistas e por seu eficiente Estado, não por espírito de renúncia cristão).

A derrota do Brasil representou a desmistificação do futebol brasileiro, para a qual contribuiu bastante o péssimo desempenho dos nossos jogadores na copa e, em particular, naquele jogo contra o time de Zidane. A farsa está latente no forte merchandising em torno do técnico e dos jogadores brasileiros, que transformaram a copa num grande balcão de negócios. Parreira, por exemplo, lançou, junto com a copa, o livro “Formando equipes vencedoras”, segundo ele, “lições de liderança e motivação, do esporte aos negócios”. Propaganda enganosa: seus “ensinamentos” não levaram à formação de uma equipe vencedora na copa.
Bastante motivados fora de campo no gerenciamento da própria imagem e do lucro de suas “marcas” durante a copa (muito importante: aproveitar o momento), Parreira e vários jogadores, como os dois Ronaldos, Kaká, Adriano e Roberto Carlos pareciam desmotivados dentro de campo, como se estivessem “com a vida ganha”. Motivação e atitude que não faltaram para Robinho, Cicinho e Fred, jogadores que, apesar do reconhecimento, estão construindo suas carreiras.

Que isso não sirva de consolo para a eliminação do Brasil, mas o futebol está cada vez menos “romântico”. Os talentos individuais existem e ainda podem ser admirados, mas de conjunto o que predomina é o título pelo título. Assim, pode ser uma ironia do destino, o título mundial ter ficado com a Itália, país onde o futebol está metido num mar de lama e corrupção. Pode, no entanto, não ser mais que a conseqüência natural de um esporte cuja organização baseia-se mais e mais na lógica capitalista e sua “pressa” por lucros e resultados.

quarta-feira, abril 05, 2006

A queda de Palocci, estabilidade econômica, ordem e progresso

Gilcênio Vieira Souza

O ministro Antonio Palocci caiu.
O caseiro Francenildo dos Santos Costa afirmou ter testemunhado várias vezes a ida de Palocci a uma mansão, em Brasília, onde se encontrava com prostitutas e prostitutos, digo, parceiros, da “república de Ribeirão Preto”, para, supõe-se, articular lobbies e realizar orgias. Pela “ousadia” de ter denunciado o ex-ministro da Fazenda, o caseiro foi vítima de “um dos mais graves atentados aos direitos políticos de um cidadão jamais perpetrados desde a redemocratização” (Alberto Dines, “A devassa da devassa – vazamentos no banco dos réus”. In: http//observartorio.ultimosegundo.ig.com.br): Francenildo teve a sua conta bancária violada e divulgada à imprensa, num conluio no qual o próprio presidente da Caixa Econômica Federal se envolveu.
Se não tivesse feito uso do aparelho de Estado para quebrar o sigilo bancário do caseiro, a figura do ex-ministro continuaria imaculada, apesar de suas promíscuas relações com a iniciativa privada – datadas de quando ainda era prefeito de Ribeirão Preto – terem sido expostas no congresso e na imprensa. Fora do cargo, as denúncias contra Palocci agora ganham corpo em acusações de falsidade ideológica, peculato e corrupção.
A mística em torno do ex-super-ministro (El País, 29/06) atende pelo nome de “estabilidade econômica” e une gente como Lula, José Serra, Arnaldo Jabor, sindicalistas ligados à direção majoritária da CUT e do PT, que definem o mar de lama em que se meteu o governo Lula como fruto de um complô da direita, e até mesmo a anti-lulista revista Veja, para quem Palocci é “o mais brilhante ministro do governo Lula e um dos mais sensatos condutores da economia brasileira em décadas” (Edição 1950, 5/4/2006). .
Em nome da “estabilidade” Palocci foi preservado no cargo de ministro, até ser vítima de sua própria armadilha. “Estabilidade econômica” virou o abracadabra, tanto dos tecnocratas que querem vender uma boa imagem do país para os investidores estrangeiros, como do cidadão comum, que repete, autômato, mais que um clichê: a falsificação simbólica da realidade, recriada semanticamente, aspirando um consenso ideológico que impeça o questionamento das diretrizes do governo Lula, plenamente favoráveis ao grande capital financeiro. Afinal, quem, em sã consciência, é a favor da “instabilidade”?
Manipulação da linguagem e manipulação da realidade são aspectos inseparáveis e complementares da fabricação de consensos sociais, imprescindíveis à dominação política. Não é por outro motivo que 35% dos senadores e 10% dos deputados “controlam diretamente emissoras de rádio e tv” no Brasil (www.congressoemfoco.com.br), apesar de a lei proibir.
Há fartas indicações de que, muitas vezes, poder político e propriedade de veículos de comunicação caminham juntos. No Brasil, o controle dos meios de radiodifusão é uma das marcas de várias oligarquias locais ou regionais, algumas das quais com forte influência nacional. A família do ex-presidente Fernando Collor de Melo controla o principal grupo de mídia alagoano. As famílias Sarney e Magalhães imperam, respectivamente, no Maranhão e na Bahia (www.congressoemfoco.com.br).
O lema dos positivistas republicanos – “ordem e progresso” – corresponde, em certa medida, nos dias atuais, à propaganda da suposta “estabilidade econômica” obtida durante o governo FHC e que teria em Palocci “um dos mais sensatos condutores”. A criação da bandeira republicana é um dos exemplos mais representativos da manipulação simbólica com vistas à re-significação do mundo social. O lema positivista pretendia oficializar uma realidade perfeita, “estável”, a anos-luz da realidade brasileira, marcada pela miséria da população e a opressão política do poder oligárquico federal e das diversas oligarquias regionais. O problema é que não foi possível inserir o lema “ordem e progresso” no espírito das massas com a mesma facilidade com que foi inserido no céu da bandeira brasileira...
Artur Azevedo escreveu um conto, “O velho Lima”, que expressa o assombramento de um personagem para quem a manipulação dos significantes não havia se transformado em novos significados. O velho Lima, “empregado antigo numa das nossas repartições públicas”, adoece no dia 14 de novembro, ou seja, na véspera do golpe que fez da monarquia uma república no Brasil. Não tinha o hábito de ler jornais e, assim, ignorava por completo a mudança de regime político. Restabelecido nove dias depois, de volta ao trabalho estranha, no trem, que um comendador o tenha tratado por “cidadão”, que se refira ao imperador como “aquele tipo” e que o subdelegado tenha a ousadia de expressar o desejo de que Dom Pedro II “vá para a casa do diabo”. “O velho Lima estava atônito”.
Ao chegar à secretaria em que trabalhava, Lima observou que um “vândalo estava muito ocupado a arrancar coroas imperiais que enfeitavam o gradil do parque da aclamação”. Na secretaria, ”um servente preto e mal trajado não o cumprimentou com a costumeira humildade; limitou-se a dizer-lhe: - Cidadão!”. Completando os estranhos acontecimentos daquela manhã, Lima viu que “tinham tirado da parede uma litografia representando d. Pedro de Alcântara”. Curioso, perguntou a um contínuo sobre a imagem de “sua majestade”:
“- Ora, cidadão, que fazia ali a figura do Pedro Banana?
- Pedro Banana! – repetiu raivoso o velho Lima.
E, sentando, pensou com tristeza:
‘Não dou três anos para que isto seja uma República!’”.
Além de ser devido ao velho Lima não ler jornais, o estranhamento do personagem resulta também do fato de que os signos lingüísticos republicanos não haviam amadurecido junto à consciência popular de transformação do regime, afinal, a república no Brasil é fruto da articulação golpista de ex-monarquistas.
O governo Lula re-enfatizou a publicidade da “estabilidade econômica” do governo FHC. Para inglês ver: de que estabilidade estamos falando, quando sabemos que menos de 1% dos proprietários rurais no Brasil possuem 46% das terras e as 300 maiores propriedades rurais possuem uma área igual a dos estados de São Paulo e Paraná, enquanto, por outro lado, existem 4,6 milhões de famílias sem terra? A estabilidade dos ganhos ascendentes das transnacionais, que hoje abocanham 25% do PIB brasileiro, quando dez anos atrás era de 13,5%? A passiva “estabilidade” de 50 milhões de famintos? “Estabilidade econômica” não é o salmo que indica o céu para os cidadãos em geral; é uma logomarca que tenta esconder a exploração econômica dos que ganham salários miseráveis ou e ainda são levados a acreditar que “este é um país que vai pra frente”...
Enquanto isso, se complica cada vez mais a situação do maestro da “estabilidade” no caso da quebra do sigilo do caseiro, com a revelação dos métodos ditatoriais usados por Palocci para burlar o regime democrático do qual se dizia defensor.
117 anos depois, o velho Lima se sentiria tranqüilo numa república onde os governantes ainda usam métodos imperiais e os cidadãos – companheiros e companheiras – não conseguem desfrutar dos benefícios da ordem e do progresso do sistema capitalista.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Sobre cuecas e trambiques

Gilcênio Vieira Souza

Na cidade de Juazeiro do Norte havia um homem conhecido como Beato Elias. Quando a cidade se enchia de romeiros que iam visitar o túmulo do Padre Cícero, Elias surgia nas ruas com uma relíquia nas mãos: uma cueca encardida que, segundo ele, havia pertencido ao Padre Cícero. Os romeiros não pensavam duas vezes: todos queriam tocar, cheirar, molhar a cueca, espremê-la e levar para casa a água "milagrosa" que dela escorria. Claro que não esqueciam da "gorjeta" do Beato. O Padre Cícero jamais havia vestido aquela cueca.
Beato Elias ensinava catecismo para uma menina, filha de uma mulher valente, conhecida como Maria Tubiba, que morava na serra do Horto, lugar onde hoje fica a famosa estátua do Padre Cícero. Certo dia, Maria Tubiba foi verificar se sua filha estava se esforçando para aprender a palavra de Deus. Descobriu que esforço maior era feito pelo Beato Elias; não exatamente para ensinar a palavra de Deus, mas para mostrar os supostos poderes divinos do "objeto" dentro da suposta cueca do Padre Cícero que ele, Elias, descaradamente usava naquele momento.
Contam que Maria Tubiba fez o Beato descer a serra debaixo de uma tremenda surra. Desde então, nem ele nem a cueca voltaram a Juazeiro...

Em julho do ano passado uma outra cueca virou manchete nos jornais de todo o Brasil: José Adalberto Vieira, assessor do deputado José Nobre Guimarães, do PT do Ceará, foi flagrado escondendo 100 mil dólares... dentro da cueca.

Abusar da boa-fé do povo é coisa antiga. Mas nunca se viu tanto cinismo como nos dias de hoje. No dia 20 de novembro último, o chefe do assessor flagrado com a mão na botija, digo, com o dinheiro na cueca, o deputado Guimarães, teve o pedido de cassação do seu mandato rejeitado por 23 votos a 16, pela Assembléia Legislativa do Ceará, apesar de admitir ter recebido 250 mil reais, não oficializados pela Justiça, para serem gastos na campanha eleitoral. Segundo ele, o dinheiro lhe foi repassado por Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, por meio de uma mulher cujo nome disse não se lembrar.

Enuqanto isso, 32 milhões de pessoas tentam sobreviver com meio salário mínimo por mês e 13 milhões de indigentes fazem malabarismo com 1/4 do salário mínimo (75 reais), para continuar merecendo o nome de seres humanos, embora a maioria tenha que buscar no lixo o próprio alimento, como se fossem animais...

Se fosse vivo, talvez o Beato Elias estivesse rindo de como era inocente o golpe que usava para tirar dinheiro do povo, em comparação com os esquemas altamente sofisticados de hoje. Ou, talvez, estivesse apavorado com a possibilidade de ser convocado para depor numa nova Comissão Parlamentar de Inquérito: a CPI do cuecão...

quinta-feira, dezembro 15, 2005

O filho de Lampião

Gilcênio Vieira Souza

A institucionalização da repressão contra trabalhadores, conforme anunciou a Anistia Internacional no relatório sobre a polícia brasileira, me faz lembrar que quando nasci, em 1969, estava em curso no Brasil a terrível ditadura instalada com o golpe militar de 1964. Suas marcas ideológicas se faziam presentes na vida cotidiana de diversas formas. Uma delas condicionou-me durante muito tempo: quando me pegava cantando o hino da bandeira ("salve lindo pendão da esperança") como um indelével traço cuneiforme em meu cérebro. Afinal, durante o primário (estamos em Juazeiro do Norte, Ceará), só podíamos entrar na sala de aula, terminado o recreio, depois de cantar, em fila, o hino da bandeira.
O silêncio rondava as relações familiares, desautorizando referências explícitas ao clima de repressão do período, o que me fez viver uma "infância feliz", sem me angustiar com os problemas do mundo (coisa que, hoje, a aguçada percepção dos meus filhos não permite: há pouco me pediram para comprar uma camiseta estampando o clamor mundial "fora Bush").
Mesmo assim, aos 14 anos, eu já participava da campanha das "Diretas Já" e me preocupava com a Lei de Segurança Nacional. Mas não havia medo ou paranóias de perseguição, apesar das coincidências que de vez em quando me faziam cruzar com um maluco que era membro da organização ultradireitista Tradição, Família e Propriedade.
Antes disso, porém, eu era mais menino, mais ingênuo, e o medo chegara a mim de outra fonte e outra forma, através de uma descoberta que me deixou inicialmente apreensivo e, por conseguinte, reflexivo: a de que o vigia da Biblioteca Pública de Juazeiro do Norte era filho de Lampião. Mamãe que certo dia me contou:
- O vigia da biblioteca?
- Sim, João Peitudo, é filho de Lampião.
Passei alguns dias pensando naquilo e olhando-o de um modo diferente. Como podia aquele homem pacato ser filho do maior cangaceiro brasileiro? O seu nome, que até então eu desconhecia - João Peitudo - e o simbolismo da situação me faziam pensar como instintos violentos podiam se esconder naquele homem aparentemente dócil.
Eu, que frequentava bastante a biblioteca, acabei me acostumando com João Peitudo e chegando à conclusão que aquele apelido era uma injustiça.
Mais tarde, já sem a dócil visão de menino, eu aprenderia como a miséria produz "fanáticos", como Antonio Conselheiro, e "facínoras", como Lampião. Aprenderia também sobre a farsa de que há um corpo de homens armados, prontos para defender a pátria e a ordem social. Enquanto esse grupo armado, a serviço do Estado, continuar impondo a humilhação, a tortura e a morte aos que têm a vida como o único bem, os filhos de Lampião se multiplicarão sobre a terra; não terão, com certeza, a índole pacífica do ex-vigia da Biblioteca Pública de Juazeiro do Norte...

[Saí de Juazeiro em 1992 e não tive mais notícias de João Peitudo. Antes de escrever este texto, fiz uma pesquisa no google e descobri que João Peitudo conseguiu comprovar, em 1994, através de um exame de DNA feito nos Estados Unidos, que era de fato filho de Lampião e Maria Bonita; e que morreu em 200o, aos 62 anos...]

sábado, dezembro 03, 2005

Morte seguida de resistência

Gilcênio Vieira Souza

A Anistia Internacional divulgou ontem um relatório que mostra o que já se sabia sobre a polícia brasileira: sua extrema violência contra os pobres.
A brutalidade da polícia brasileira é expressão contínua do sadismo do colonizador, do senhor de engenho, do coronel. Sadismo cuja gênese mescla a psicologia e a cultura do poder em terras brasileiras com a necessidade de reprimir os que se opõem à dominação política e econômica. E para cumprir com essa que é sua primordial função, o Estado burguês está bem servido no Brasil de ditaduras exemplares. Desumanizar o oprimido, reduzi-lo a uma coisa abjeta, aniquilar suas aspirações e, se for o caso, a maior e ao mesmo tempo a mais simples de todas - a aspiração de continuar vivo - são tarefas ensinadas nos quartéis, como provam os vídeos divulgados recentemente, mostrando a tortura e a humilhação com que muitos policiais submetem os recrutas, para que se "preparem" para projetar tamanha selvageria nos que ousam questionar a "ordem".
O documento da AI destaca a responsanbilidade dos governos brasileiros - leia-se Estado - na institucionalização da violência policial, principalmente contra as comunidades carentes, revelando que a maioria das vítimas da polícia são jovens pobres, negros ou pardos, e boa parte sem antecedentes criminais.
Essa constatação está presente há muito tempo nas letras de rap e nas denúncias de organizações que dão voz aos moradores da periferia. Percebe-se, felizmente, que cada vez mais surgem grupos de contestação ao mito da "cordialidade" brasileira, como os movimentos de favelados, desempregados, rappers, grafiteiros, etc.
Um dado fundamental apresentado pela Anistia Internacional desvenda uma das artimanhas utilizadas pela polícia para esconder sua estratégia deliberadamente genocida: entre 1999 e 2004, as polícias do Rio de Janeiro e de São Paulo mataram 9.899 pessoas em situações oficialmente registradas como "resistência seguida de morte".
Para cada trabalhador assassinado pela polícia - leia-se Estado - pelo crime de não ter nascido em berço de ouro e/ou não manter relações promíscuas com o poder ("pistolões" da burocracia estatal no judiciário, no executivo, etc.) , deve-se organizar nova resistência: expressão coletiva da solidariedade entre os oprimidos para barrar a opressão secular que faz do Brasil uma das nações com as maiores taxas de mais-valia do planeta, uma das polícias mais repressivas e um dos judiciários mais lentos e parciais. Caso contrário, se repetirão chacinas como a do Carandiru, em 1992, na favela do Vigário Geral, em 1993, nas escadarias da Calendária, também em 1993, em Eldorado dos Carajás, 1997, na Baixada Fluminense, 2005, ou as pequenas e muitas vezes anônimas resistências seguidas de morte com que se mascara o trabalho premeditado de extermínio efetuado pela polícia brasileira.